Produtos Tradicionais Portugueses

Produtos Tradicionais Portugueses

Sopa do Espirito Santo

Descrição (dimensões, cor, aroma, textura):

Delimitação da área geográfica de produção: Ilha Graciosa, Açores.

Ingredientes utilizados: 2 kg de carne de vaca (peito) ; 1 galinha (ou dois frangos) ; 500 g de fígado de vaca ; 250 g de sangue de vaca coalhado ; 3 dentes de alho ; 2 cebolas ; 1 ramo grande de hortelã ; 1 pau de canela ; 1 colher de sopa de massa de malagueta ; 1 repolho médio ; 1 colher de sopa de banha ou de manteiga ; 1 pão de trigo grande (duro) ; 1 concha de molho de alcatra ; sal.

Modo de preparação: Faz-se uma boneca deitando num pano os dentes de alho, as cebolas aos quartos, a hortelã, o pau de canela e a massa da malagueta. Ata-se com uma guita e mergulha-se na água para a sopa que já está temperada com sal. Leva-se ao lume e quando ferver introduz-se a carne e a galinha e deixam-se cozer. (Substituindo a galinha por frangos, estes devem juntar-se quando a carne estiver praticamente cozida).
Estando as carnes cozidas, junta-se o repolho cortado aos quartos e a banha e continua a cozer. À parte e em recipientes separados cozem-se em água o bocado de fígado inteiro e o sangue. Corta-se o pão ao meio, no sentido horizontal, e depois em quatro ou cinco bocados (cada metade), no sentido vertical. Põe-se este pão (com o miolo voltado para cima) numa tigela. Dispõe-se por cima um ramo de hortelã e rega-se com uma concha de molho de alcatra. Espalham-se ainda por cima o repolho, algumas fatias pequenas de fígado e de sangue e rega-se tudo com um pouco de caldo. Tapa-se, e alguns minutos depois rega-se com o restante caldo. Cobre-se a sopa com uma toalha de linho e abafa-se com cobertores, ficando assim durante umas duas a três horas. Comida a sopa, come-se a carne, a galinha e o que resta do fígado e do sangue. Esta sopa é sempre servida nas Funções (festas) do Espírito Santo, comendo-se a seguir a alcatra com massa sovada ou com pão de mesa, conforme as freguesias.

Saber fazer: Feita com caldo de carne, temperado com sal, louro, hortelã, pau de cravo, pimenta e molho de alcatra. Leva pão (pão de água) cortado à faca em grossos nacos e algumas folhas de repolho. É cozinhada em grandes caldeirões, ao ar livre, sobre trempes de ferro ou simples pedras, dispostas de modo conveniente junto a uma parede para desviar o lume do vento. Serve-se em grandes tigelas de louça de barro.

Historial do produto: O culto açoriano ao Divino Espirito Santo, terá erradicado de tomar onde se registam notícias seguras da sua existência, nos séculos XIV e XV. Outro centro relevante foi Alenquer onde, nos primeiros anos do século XIV, a Rainha Santa Isabel terá introduzido a primeira celebração do império do divino Espirito santo, provavelmente influenciada por franciscanos espiritualistas, que ali fundaram o primeiro convento franciscano em Portugal. A partir dali, o culto ter-se-á expandido, primeiro pelo resto de Portugal e, depois, acompanhando os portugueses na expansão dos Descobrimentos. As novas terras descobertas, subordinadas directamente ao prior de Tomar e, mais tarde ao arcebispado do Funchal e ao novo bispado de Angra, estavam sobre a orientação religiosa da Ordem de Cristo, a quem competia a nomeação do clero e a supervisão do seu desenvolvimento religioso. Neste contexto, as referências ao culto do Espirito santo são uma realidade comum em todo o arquipelago, onde já se regista a existência de Irmandades do Divino, com o bodo e distribuição de carne, pão e vinho, em meados do século XVI. O culto do Divino Espirito Santo assume-se como um dos traços centrais de unificação e de cultura da açorianidade, entre as diversas ilhas, e destas com o mundo. Com a emigração açoriana, o culto é levado para o Brasil, no século XVIII, fundamentalmente para o Rio de janeiro e mais tarde para os EUA. Mas o que de facto, caracteriza as Festas do espirito santo, é a sua vertente religioso/profana de solidariedade, marcada pela gastronomia, no apontamento da “Função”. Esta varia de ilha para ilha, de império para império, até na mesma ilha. As festas do Espírito Santo, que têm sua origem na doação de alimentos aos pobres feita por Isabel de Aragão (1271-1336), foram introduzidas pelos portugueses na ilha para proteger os habitantes dos desastres naturais. Tradicionalmente, elas acontecem aos domingos, durante sete semanas depois da Páscoa. Essas festas, especialmente comemoradas na Ilha Terceira, misturam danças, arranjos florais e a coroação de uma criança, que preside às cerimônias. No último dia (ou seja, no sétimo domingo), a sopa do Espírito Santo é preparada e distribuída ao público. É feita de carne de vaca e de galinha cozidas em um caldo que leva alho, cebola, hortelã, canela, pimenta-malagueta, repolho e banha. A sopa e um preparado de fígado de vaca cozido em sangue são servidos sobre camadas de pão. Isso ocorre nos Impérios, pequenas construções de alvenaria onde se realiza parte da festa e são expostos os emblemas próprios do festejo. Na Ilha Terceira, existem 58 impérios, que costumam ser pintados com as cores vivas da primavera.

Fonte: Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas